A região de Rio Preto registra 498 mortos sem identificação em pouco mais de cem anos, segundo dados da Central Nacional de Óbitos de Pessoas Não Identificadas. O banco de dados público mostra que o corpo mais antigo catalogado na área data de 1923, em Cedral, e o mais recente foi encontrado em dezembro de 2025, em Bady Bassitt.

Somente no município de Rio Preto, 227 pessoas foram catalogadas, sendo 21 mulheres. A plataforma permite filtrar pesquisas por idade, sexo e cor da pele, mas muitos casos ultrapassam duas décadas sem resposta devido à falta de registros oficiais deixados pelos falecidos em vida.

Avanço tecnológico e projeto local

Desde 2023, o delegado seccional Everson Contelli coordena o projeto Humanidade 21 no Deinter-5 (Delegacia de Investigações de Interiores). A iniciativa audita investigações arquivadas usando tecnologia atual para cruzar dados que antes ficavam fragmentados entre delegacias, hospitais e institutos de identificação.

O trabalho já devolveu a identidade a dezenas de corpos. Um dos casos marcantes envolveu um jovem da Grande São Paulo, atropelado sem documentos na região em 2016. A família, que aguardava seu retorno nas redes sociais, pôde finalmente confirmar o destino dele graças à auditoria.

  • Tecnologia: O DNA virou rotina desde os anos 1990, permitindo extração de material genético de ossos e dentes mesmo em corpos em decomposição avançada.
  • Obrigação legal: Hoje, todo cadáver não identificado tem coleta de DNA antes do sepultamento, guardada para confronto futuro.
  • Rede nacional: A Lei nº 13.812/2019 criou a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, integrando sistemas que antes não se comunicavam.

Desafios e reconhecimento

Marcus Vinicius Baptista, professor de Medicina Legal da Famerp, explica que até os anos 1980, a identificação dependia apenas do reconhecimento facial ou de fichas de digitais. Se o corpo estivesse muito deteriorado, ele era enterrado como indigente e perdia o nome para sempre.

O projeto Humanidade 21 ganhou o Prêmio Direitos Humanos Luiz Gama & Esperança Garcia em 2025. Segundo o delegado Contelli, o maior obstáculo ainda é jurídico: não há um regime próprio que trate o cadáver desconhecido como um caso aberto para busca de dignidade, independentemente de haver suspeita de crime.