O anel da invisibilidade
Em seu texto publicado nesta terça-feira (29), o juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Evandro Pelarin, reflete sobre como a tecnologia moderna facilita a conduta antiética ao eliminar o risco de ser visto. A coluna, assinada por ele neste espaço, usa referências literárias e filosóficas para discutir a ética no poder.
Pelinari parte de "Crime e Castigo", de Dostoiévski, para explicar que o protagonista Raskólnikov não adoecia apenas pelo crime, mas pela necessidade de agir às ocultas. Ao precisar da escuridão, ele percebeu que não era um "homem extraordinário", mas comum e passível de punição.
Tecnologia e o novo anonimato
O autor compara essa dinâmica à história do pastor com o anel da invisibilidade, contada por Platão em "A República". A ideia central é que, se removido o risco de ser visto e punido, a conduta muda. Se a retidão desaparece quando ninguém olha, ela não era virtude, mas cálculo.
Para Pelarin, hoje esse "anel" pode ser uma mensagem efêmera ou uma informação subtraída ao escrutínio público. A tecnologia realiza a fantasia grega da invisibilidade, permitindo que instituições permaneçam íntegras por fora, mas ocas por dentro.
A consciência não some
Diferente do déspota declarado, que sabe quem é e pode ser enfrentado, o autoritário invisível corrói a confiança que sustenta a cidade. O juiz cita Sócrates para argumentar que a justiça não beneficia quem a exerce, mas quem a recebe.
A conclusão do texto é direta: o segredo é expediente de quem teme o castigo. Quem recorre às sombras para burlar a lei é um infrator ordinário. E, diferentemente das mensagens digitais, a consciência não desaparece depois de lida.
