O pacto da indiferença

O brasileiro costuma repetir com convicção de quem tem alergia a poeira que não gosta de política. O gesto é quase um reflexo de sobrevivência quando começa o horário eleitoral gratuito na televisão: torce o nariz, resmunga uma praga e troca de canal. É o chamado "pacto da indiferença", uma paz armada que dura exatamente até o momento em que a campanha começa a decolar.

No início, a resistência é firme. O cidadão ignora as bandeirolas, desvia dos panfletos no centro da cidade e jura que nem sabe o número de ninguém. Mas a propaganda é ágil e paciente. Ela não chega arrombando a porta; vem de mansinho.

A semente da discórdia

  • Começa com uma declaração meio torta de um candidato que o sujeito ouve sem querer no rádio;
  • Segue com um meme engraçado no grupo do trabalho;
  • Quando se dá conta, a semente da discórdia já brotou.

Lá pelo meio do processo, a metamorfose se faz. O sujeito que dizia odiar o assunto passa a gastar vinte minutos do seu almoço explicando porque o plano de governo do candidato X é a única salvação para o país. A repulsa vira fascínio.

Do sofá às redes sociais

De repente, o homem que mal postava fotos próprias começa a compartilhar análises inflamadas nas redes sociais, seguidas de frases de efeito. A transformação segue para o guarda-roupa. Sem perceber, ele passa a seguir a cartilha visual traçada pelo marqueteiro do partido.

Então ele ajusta a cor como quem veste o fardamento oficial de uma frota. A essa altura, o pragmatismo já virou paixão cega. O vizinho de porta, com quem trocava gentilezas, passa a ser visto como um adversário ideológico perigoso, só porque cometeu o pecado de colocar uma bandeira na varanda.

A reta final e o retorno ao cinismo

Chegamos, finalmente, à reta final nesta semana. Faltam poucos dias para o domingo decisivo e a razão abre falência total. O cidadão vira um torcedor fanático, daqueles que roem as unhas acompanhando a contagem regressiva das últimas pesquisas como se fossem os minutos finais de uma decisão de campeonato.

Ele lê a prévia dos votos, faz projeções matemáticas mirabolantes e já calcula a que horas vai votar no domingo, de camisa com a cor exigida, peito estufado, pronto para descarregar sua paixão na urna digital. Quando o resultado finalmente sair na tela, o ápice da jornada se revela:

  • Se o seu candidato vencer, haverá gritos na janela, fogos de artifício e buzinaços pela avenida, como se o título da Libertadores tivesse acabado de desembarcar na cidade;
  • Se perder, o luto será absoluto, com direito a culpar os que votaram no outro e os que não foram votar.

Tudo isso para que, na segunda-feira de manhã, lavando a alma e olhando os papéis ainda não recolhidos na rua, o mesmo brasileiro suspire, olhe para o horizonte e repita com plena convicção: "Eu? Eu não me meto com essas coisas. Detesto política".