Polêmica na Bienal do Livro

Durante a Bienal do Livro realizada em São Paulo neste ano, surgiu uma controvérsia quando uma jovem afirmou que Anne Frank "se vitimizava" ao escrever seu Diário. A declaração, segundo o professor e pesquisador João Paulo Vani, revela mais sobre a distorção contemporânea da linguagem do que sobre a figura histórica da adolescente judia.

O anacronismo do termo "vitimização"

Vani explica que palavras como "vitimismo" pertencem ao vocabulário atual das redes sociais, sendo frequentemente usadas para desqualificar sofrimentos alheios ou minimizar denúncias de discriminação. Aplicar esse conceito aos fatos vividos por Anne Frank produz uma inversão lógica e perturbadora: ela não precisava construir uma narrativa de perseguida, pois era, de fato, perseguida.

Contexto histórico e individualidade

A família de Anne se escondeu em 1942, período em que os judeus nos Países Baixos ocupados já sofriam segregação. Após mais de dois anos de ocultamento, foram presos, deportados e Anne morreu no campo de Bergen-Belsen em 1945. O diário, contudo, não é um lamento constante. Nele, a autora trata de temas universais: medo, guerra, relacionamentos familiares, desenvolvimento físico e paixões adolescentes.

A escrita como resistência

Em 1944, Anne revisou seus registros com o objetivo de publicá-los como livro. Aos 15 anos, ela compreendia que escrever era dar forma à experiência, preservando sua individualidade contra o esforço nazista de desumanização. Para o autor, essa leitura equivocada destaca a necessidade de mediação literária e educacional.

Urgência no ensino do Holocausto

O pesquisador, que realizou pós-doutorado na USP focado no ensino do Holocausto no Ensino Médio, alerta que ampliar o acesso aos livros exige também formação contextual. A banalização da experiência das vítimas ou a tentativa de compreendê-las pelas categorias do presente contribui para a circulação de negacionismo e antissemitismo nas redes sociais.