Humanidade nas grades

A Parada da Diversidade realizada na Represa Municipal de Rio Preto reafirmou, no último domingo, que ninguém deve justificar sua identidade para merecer respeito. Essa reflexão sobre reconhecimento e dignidade me levou a pensar em um livro fundamental: “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella.

Publicado em 1999, a obra transforma os anos de atendimento médico na Casa de Detenção de São Paulo em uma narrativa viva. Não se trata de idealizar o cárcere, onde violência e discriminação convivem com gestos de afeto. A literatura interessa justamente por mostrar que ninguém cabe inteiro em uma categoria.

O cinema e o direito de amar

Quando Héctor Babenco adaptou o livro para o cinema, em 2003, essa humanidade ganhou rosto. O personagem Lady Di, travesti interpretada com delicadeza por Rodrigo Santoro, e seu relacionamento com Sem Chance (Gero Camilo) culminam em um casamento dentro da prisão.

Em meio a hierarquias e preconceitos, dois personagens reivindicam algo elementar: o direito de amar. A cena também interroga os preconceitos de quem está do lado de fora das grades.

34 anos do massacre

Em 2 de outubro de 1992, a multidão foi reduzida a um número nos noticiários: 111 presos mortos durante a intervenção da Polícia Militar no Pavilhão 9. Foi véspera de eleição municipal. No ano seguinte, Caetano Veloso e Gilberto Gil escreveram “Haiti”, refletindo sobre as mortes, pobreza, racismo e como certas vidas são tratadas como descartáveis.

Pesquisadores retomaram documentos e laudos; familiares exigiram responsabilização. Após décadas, 74 policiais foram condenados em julgamentos realizados em 2013 e 2014. As decisões foram anuladas e depois restabelecidas.

Indulto e memória

Em dezembro de 2022, Jair Bolsonaro assinou o Decreto nº 11.302, concedendo indulto a agentes de segurança condenados por fatos há mais de trinta anos. Em outubro de 2024, o Tribunal de Justiça de São Paulo aplicou o benefício aos policiais do Carandiru.

Talvez seja por isso que, 34 anos depois, ainda precisemos da literatura: para lembrar que, antes de qualquer decreto, havia 111 histórias que ninguém tinha o direito de apagar.