Entre Sucupira e Antares

A colunista Prof. Dr. João Paulo Vani, presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc) e pesquisador da USP, traz uma reflexão literária que ecoa na política brasileira atual. Em seu texto 'O problema dos vivos', publicado em 30 de outubro de 2026, ele usa duas cidades fictícias famosas para discutir como o poder tenta controlar até o incontrolável.

Vani retoma 'Vidas Secas' e 'A Hora da Estrela'? Não exatamente. Ele foca em 'O Pagador de Promessas' (Dias Gomes) e 'Antares de Pedra' (Erico Verissimo). Em Sucupira, o prefeito Odorico Paraguaçu precisa de um morto para inaugurar um cemitério prometido. Em Antares, os mortos fazem greve para expor segredos da cidade.

O exagero vs. o silêncio

Para o autor, a literatura revela dimensões da vida pública com uma liberdade que a política real muitas vezes não tem. Odorico discursa para preencher vazios, usando neologismos e solenidade para tornar palavras mais importantes que fatos. Já em Antares, a ordem depende de silêncios e acordos conveniados, quebrados pela presença física dos cadáveres.

Há uma diferença crucial entre as obras. Enquanto Machado de Assis, em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', permite ao narrador revisar sua existência sem nada a perder, os mortos de Verissimo tornam públicas as contradições de toda uma comunidade.

Lições para o pós-eleições

Com a reeleição de Lula para um quarto mandato em 2026, Vani sugere olhar além do vencedor e do derrotado. A eleição decide quem governa, mas não define quais relatos serão verdadeiros ou como as divergências conviverão.

'Nem todo governante é Odorico, assim como nenhuma cidade real se confunde com Antares', alerta o professor. O interesse está em reconhecer os mecanismos pelos quais o poder procura organizar aquilo que não controla. O verdadeiro problema, conclui, não são os mortos, mas os vivos — com sua insistência em prometer, esconder e, de tempos em tempos, perguntar. É dessa disposição que uma democracia necessita.