As raízes da desigualdade
A formação econômica do Brasil não é um acaso, mas o resultado de decisões tomadas ao longo dos séculos. Para entender por que algumas regiões prosperam enquanto outras ficam para trás, é preciso olhar para o passado. Essa é a tese defendida pelo professor Ademar Pereira dos Reis Filho, doutor em Desenvolvimento Regional e docente da Fatec Rio Preto.
Em sua análise, ele destaca que o modelo de desenvolvimento adotado historicamente favoreceu sempre as áreas litorâneas e, posteriormente, o Sudeste, deixando Norte, Nordeste e Centro-Oeste em situação de desvantagem estrutural.
Ciclos econômicos e concentração
O processo começou com Portugal, que optou pelo sistema de plantation: monocultura, grandes terras e mão de obra escrava. O foco era exportar para a Europa, o que beneficiou diretamente as regiões próximas ao mar.
Durante quase três séculos, ciclos como açúcar, cacau, tabaco e mineração mantiveram essa dinâmica. A exceção foi a mineração, que trouxe riqueza para o interior, mas ainda assim consolidou centros urbanos específicos. Foi apenas com o café, na segunda metade do século XIX, que o eixo econômico se deslocou definitivamente para o estado de São Paulo e vizinhos.
- Ferrovia expandia acompanhando o mapa do café;
- Produtores cafeeiros ganharam enorme influência política;
- Centros urbanos ligados ao comércio do grão cresceram desproporcionalmente.
O legado de 1929
Até a Grande Depressão de 1929, vigrou o chamado "arquipélago regional". Enquanto o Sudeste se fortalecia, as demais regiões eram esquecidas politicamente. Quando o país entrou no processo de industrialização pós-1929, a lógica continuou a mesma: os investimentos foram direcionados onde a economia já girava em torno do café.
Essa continuidade histórica explica, segundo o autor, a dificuldade atual em criar políticas públicas inclusivas. "Para quem tem dificuldade de entender como o desenvolvimento de um país depende de políticas públicas sérias e inclusivas, a história sempre é uma ótima fonte de aprendizado", conclui Ademar.
