Impacto direto no comércio local
Cortes ou congelamento nos valores dos auxílios sociais e previdenciários podem causar uma retração severa na atividade econômica de municípios do interior do Brasil. O alerta é de um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
O estudo destaca que as aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) têm peso significativo nessas economias. Para as famílias mais pobres, esses benefícios chegam a representar quase metade do orçamento mensal.
Dinheiro circula imediatamente
A economista Luiza Nassif, pesquisadora do Made e professora da Unicamp, explica que o dinheiro recebido por essas famílias é gasto quase integralmente em itens de primeira necessidade. Isso faz com que o valor circule imediatamente no comércio local, garantindo empregos e mantendo a arrecadação dos municípios ativa.
Segundo o levantamento, dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, o peso das transferências públicas é o dobro do observado nos grandes centros urbanos.
Projeções para os próximos anos
O estudo projetou os efeitos econômicos para os próximos três anos, comparando cenários com crescimento real dos benefícios (baseado em 2022 a 2025) e cenários de congelamento (baseados em 2019 a 2022). Os resultados indicam que, sem reajustes reais, a renda agregada do interior sofreria uma queda entre 6,8% e 10,8%.
Os impactos seriam ainda mais graves em estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda total poderia cair entre 17% e 18%. Em Amazonas, Sergipe e Pernambuco, a perda seria de cerca de 15%. Já em São Paulo, o prejuízo estimado chegaria a 6,5%.
Aumento da pobreza extrema
Além da retração econômica, o estudo aponta um aumento drástico na pobreza. Simulações indicam que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza nos municípios fora das capitais, sendo 2,4 milhões em situação de extrema pobreza.
Em números absolutos, os maiores aumentos ocorreriam na Bahia, São Paulo e Minas Gerais. Para quem vive no limite da linha da pobreza, qualquer reajuste abaixo da inflação pode empurrar a família diretamente para a indigência.
