Esquecimento como mecanismo de defesa

O tempo passa rápido e leva consigo a memória dos votos anteriores. Esquecer em quem se votou na última eleição não é apenas uma falha de memória, mas um instinto de sobrevivência psicológica. Diferente de promessas feitas a si mesmo, como votos de castidade ou pobreza, que duram uma eternidade, os juramentos de palanque têm validade curta.

A eleição não é um casamento. O eleitor pode lembrar do nome do candidato que o enganou, mas o político muitas vezes nem sabe que aquele cidadão existe. Assim que as urnas são apuradas, o entusiasmo murcha e as promessas ficam arquivadas no esquecimento. O arrependimento por escolher o candidato errado é comparável ao de quem compra hoje o bilhete premiado da semana passada.

Circo político e fiscalização impossível

No cenário atual, o cidadão é convidado a fiscalizar o eleito, uma tarefa que exige tempo e paciência que ninguém tem. Há uma ilusão patológica de que alguém dará ouvidos à reclamação. Diante disso, muitos adotam o espírito de oposição automática: "Se há governo, sou contra". Essa desconfiança começa em um político, estende-se aos outros e termina suspeitando de qualquer pessoa que use terno.

Candidatos messiânicos vendem a transformação do inferno em paraíso, com a vantagem de não precisar morrer para chegar lá. Eles prometem salvação, criando um futuro radiante que faz parecer falta de educação lembrar o passado comprometedor deles.

Liberdade limitada e voto nas sobras

A especialidade da democracia moderna é oferecer tanta liberdade que a melhor opção parece ser não escolher nenhuma. No entanto, essa liberdade vem com letras miúdas: somos livres para votar, desde que seja alguém previamente escolhido pelo sistema. Os nomes chegam prontos à vitrine, e a soberania só começa depois que o caciquismo decide o cardápio. É uma espécie de "ditadura democrática": você é livre para escolher qualquer um, desde que seja um dos escolhidos pelo establishment.

Para os insatisfeitos, restam as opções de voto em branco e nulo. Contudo, o Tribunal Eleitoral nunca oficializou o "voto raivoso" como um direito constitucional ao desabafo pacífico. Se o cidadão é obrigado por lei a participar, seria justo poder registrar no livro de reclamações que o sistema está falho.

O voto no "menos pior" e a decepção garantida

Frustrado, o cidadão recorre à ginástica mental do voto no "menos pior". O objetivo não é aprovar alguém, mas garantir a menor ressaca de arrependimento pós-urna. No teatro político, a democracia insiste em eleger pessoas de suposta boa reputação, mas o honesto de hoje costuma ser a manchete policial de amanhã.

O sistema revela excentricidades monárquicas. O eleitor escolhe quem faz leis, mas assiste, amarrado, ao verdadeiro topo do poder, formado por indicações e sabatinas de fachada. Ao eleitor, resta o voto de pesar: a escolha menos trágica de hoje é a decepção garantida de amanhã. Não há guichê para devolver o bilhete político às avessas. Resta o regime que permite escolher o futuro exclusivamente entre as poucas sobras que o presente oferece.