Novos desafios para o jornalismo

O mundo nunca foi fácil para jornalistas na América Latina. Mas agora, além das tradicionais ameaças físicas e políticas, surge uma crise econômica e tecnológica. A resiliência do ofício é testada pela onda devastadora das mudanças nos algoritmos das redes sociais e pela apropriação desautorizada de conteúdos jornalísticos para alimentar modelos de Inteligência Artificial (IA).

Todos defendem a liberdade de imprensa, mas ela precisa, além de liberdade, de uma imprensa robusta e economicamente saudável. Sem isso, a instituição corre risco de extinção.

A erosão do ecossistema informativo

O aniquilamento gradual do jornalismo profissional interessa a regimes autoritários, governos corruptos e políticos que enxergam a mídia como inimiga. No entanto, essa visão também prejudica as grandes empresas de tecnologia (big techs) e os próprios modelos de IA.

Informação verificada, equilibrada e plural é um bem cada vez mais escasso neste mundo atordoado por manipulações e deep fakes. As plataformas bilionárias pagam fortunas por talentos, softwares e chips, mas se recusam a remunerar devidamente os fornecedores de seu insumo mais relevante: a informação confiável produzida pelas redações.

Riscos reais para a sociedade

Sem jornalismo profissional, vastas camadas de dados das plataformas de IA virarão um lodaçal de alucinações e desinformação. Um exemplo recente ocorreu em Ceuta, no verão passado, quando mais de 70 mil marroquinos acreditaram em fake news propagadas nas redes sociais sobre a possibilidade de entrar na Europa pelo mar, resultando em tragédia com mais de 80 mortos.

Segundo pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, 52% dos jovens entre 18 e 24 anos se informam prioritariamente por redes sociais. O resultado dessa tendência é uma massa enganada e vulnerável.

Resistência e futuro

Se a erosão do ecossistema jornalístico continuar, teremos mãos livres para corruptos, devastadores ambientais e violadores de direitos humanos. Sem pluralidade, a sociedade perde a noção dos contrapesos democráticos e torna-se refém de extremismos.

O jornalismo na América Latina vive uma situação parecida com a resistência moral narrada no filme brasileiro "Ainda Estou Aqui". Sofre violência, perseguições e injustiças, e agora enfrenta a ameaça existencial da IA. Mas ainda estamos aqui, mantendo a teimosia necessária para preservar a democracia.