O juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto publicou nesta terça-feira (26) uma reflexão sobre a dinâmica familiar e a crise de autoridade que muitos pais enfrentam hoje. A coluna, assinada por Evandro Pelarin, usa como ponto de partida um texto clássico do cronista Nelson Rodrigues para discutir onde está o "defeito" na criação dos filhos.

A tese incômoda de Nelson Rodrigues

Em março de 1971, Nelson Rodrigues relatou em O Globo o desespero de um pai que descobriu que o filho usava drogas. O homem, chateado, repetia a pergunta: "Onde está o defeito? Queria descobrir onde a criação havia falhado."

Nelson respondeu com uma frase contundente: "O defeito do jovem é o velho". Para o cronista, a idealização da imaturidade não nasce nos meios de comunicação, mas começa em casa. Ele narrava cenas em que crianças agressivas eram consoladas pelos pais, recebendo o que chamou de "bofetada consentida".

A realidade da Vara da Infância

Pelarin, que atua no judiciário rio-pretense, afirma que esse exagero literário se aproxima da realidade vista nas audiências. Raramente o adolescente chega à vara após uma queda repentina. Antes disso, há uma longa distração dos adultos: celular sem fiscalização, noites sem controle e a recusa em dizer "não" por preguiça ou medo de conflito.

Um idoso citado pelo juiz resumiu a questão com precisão: "Se um filho não respeita o pai ou a mãe, quem ele irá respeitar fora de casa?".

O que diz a lei

Contrariando a ideia de que a legislação é complacente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) exige que os pais não apenas sustentem, mas também exijam obediência e respeito. A palavra-chave é "exigir", e não pedir ou negociar.

O juiz esclarece que isso não autoriza castigo físico ou humilhação, condutas vedadas por lei. Trata-se de presença ativa: estar junto, acompanhar, cobrar e desconfiar quando necessário.

Responsabilidade como salvação

Enquanto Nelson Rodrigues culpava os adultos pela desumanização dos jovens, o magistrado diverge ao afirmar que o adolescente deve responder por seus atos. É através dessa responsabilização que se aprende o dever de respeito.

A coluna encerra lembrando que o amor que tudo concede é cômodo, mas raramente é o maior. Pais que amam exigem limites, e filhos que aprendem a lidar com essas exigências tendem a retribuir com respeito e amor no futuro.