É a eleição, estúpido

O cenário político brasileiro vive um momento curioso. A menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, dois dos principais candidatos fizeram mudanças drásticas de posição em temas que pareciam consolidados. O editorial desta edição chama atenção para o fenômeno: "É a eleição, estúpido".

A expressão remete à famosa frase do estrategista James Carville, usada na campanha de Bill Clinton nos EUA em 1992. Na época, o foco era a economia. Hoje, no Brasil, o foco parece ser a flexibilidade ideológica em busca de votos.

As mudanças de postura

Lula (PT): Em entrevista ao Jornal Nacional, na TV Globo, o presidente surpreendeu apoiadores ao declarar apoio à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. Essa posição contrasta com a resistência histórica do seu campo político à mudança.

Flávio Bolsonaro (PL): Por outro lado, o senador votou a favor do fim da escala 6x1 no Senado, em 14 de outubro. Ele afirmou que, se eleito, manterá o texto aprovado. A virada ocorre após seu partido tentar esvaziar sessões para impedir a votação.

Cálculo ou reflexão?

Mudar de opinião não é necessariamente um defeito. Pode ser sinal de maturidade e aperfeiçoamento da democracia. No entanto, quando essas conversões acontecem sem explicações convincentes e na reta final de uma eleição, levantam dúvidas.

  • As circunstâncias são diferentes, mas o vício é o mesmo.
  • Ambos parecem ajustar convicções ao que imaginam ser mais rentável nas urnas.
  • Governar exige escolhas; campanhas parecem sacrificar convicções pela vitória.

Reduzir a maioridade penal e mudar a jornada de trabalho têm efeitos concretos na sociedade. Não cabem em acenos improvisados. Enquanto nos EUA Bill Clinton venceu em 1992, no Brasil de 2026, essas metamorfoses aumentam a imprevisibilidade do resultado e tornam o eleitorado ainda mais atento.