Memórias do interior
O jornalista e artista plástico Jocelino Soares, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura, publicou no Diário Classic um texto que transporta o leitor para as fazendas do interior paulista. A narrativa gira em torno de Anacleto, apelidado de "doutor Cletinho", uma figura central na vida comunitária local.
Apesar de cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco em São Paulo, Anacleto era tratado com respeito pela comunidade rural. Ele se destacava por ser educado, sério e possuir uma inteligência acima da média dos moradores da região. Era ele quem redigia as cartas para os residentes, atuando como um ponto de conexão intelectual naquela vila isolada.
A campanha política nos anos de chumbo
O artigo descreve como a fazenda, abrigando mais de quarenta famílias, virava o centro das atenções durante as eleições. Em tempos de bipartidarismo (ARENA e MDB), os candidatos chegavam em carros suspensos pelas estradas esburacadas, trazendo presentes como camisas listradas, bolas de capotão e chuteiras para angariar votos.
A cena central da crônica ocorre quando um candidato a prefeito, acompanhado de sua comitiva, aborda Anacleto. O político, tentando garantir o apoio do homem culto, pergunta discretamente se ele já tinha preferência pelo partido da ARENA.
A resposta definitiva
Anacleto, descrito como homem de poucas palavras e muita raiz caipira, não se deixou intimidar pela empáfia do visitante. Com olhar firme, ele deu uma pausa longa, acendeu seu cigarro e proferiu uma resposta célebre que deixou o político sem reação.
Jocelino Soares encerra o texto destacando essa interação como exemplo da "diplomacia matuta" da gente do interior, uma forma de inteligência prática e humor que resiste ao tempo e aos palanques políticos.
