O editorial publicado nesta terça-feira (21) pelo promotor de justiça Sérgio Clementino no Diário de São José do Rio Preto aborda a normalização da mentira no cenário político brasileiro, com reflexos diretos na vida pública local.
Referenciando o estadista Otto von Bismarck, o texto destaca que a política é historicamente um ambiente onde a desinformação prospera. No entanto, Clementino argumenta que, no Brasil, essa relação ultrapassou os limites temporais das campanhas eleitorais, tornando-se uma característica estrutural da convivência social.
Direito ao silêncio vs. Direito de mentir
O autor contrasta a garantia constitucional brasileira de permanecer em silêncio com sistemas jurídicos internacionais que punem o perjúrio. Segundo o editor, a hermenêutica local transformou esse direito fundamental em uma licença para inventar versões falsas sem consequências imediatas, criando um "direito de mentir" institucionalizado.
Cultura da complacência
A matéria critica a reação da sociedade diante de escândalos de corrupção ou irregularidades administrativas. A narrativa descrita é previsível: a negação categórica seguida pela descoberta de provas e a posterior adaptação do discurso público, tudo isso sem perda significativa de legitimidade política.
Clementino compara essa aceitação popular à tolerância de um "parente inconveniente no almoço de domingo", sugerindo que o argumento "todos são iguais" serve para absolver o estelionato intelectual antes mesmo do julgamento final.
Impacto nas eleições
O promotor conclui que essa alta tolerância à mentira anestesia a indignação cidadã e distorce a avaliação do caráter dos líderes. Na hora das urnas, o eleitorado já vai ciente das ilusões políticas, mas continua votando, o que perpetua o ciclo de desconfiança e má gestão pública na região e no país.
