Um país que carrega a memória

A médica e professora da Famerp, Regina Chueire, escreve neste domingo (19) uma reflexão sobre o papel do cidadão nas vésperas de mais um pleito eleitoral. Inspirada na obra Poema Sujo, de Ferreira Gullar, ela lembra que a urna não encerra a história, mas apenas marca um momento em que continuamos responsáveis pelo Brasil que construímos.

O Brasil invisível e as redes sociais

Regina destaca dois perfis de brasileiros. O primeiro é o trabalhador silencioso: quem acorda cedo, pega ônibus lotado, espera no posto de saúde e cuida dos outros. É um país de mãos ásperas e sonhos adiados, que raramente aparece nos palanques, mas deles se alimenta.

O segundo perfil vive nas telas. As redes sociais, que deveriam aproximar, viraram territórios de confronto. Os algoritmos privilegiam conteúdos emocionais e confirmam preconceitos, transformando o adversário político em inimigo a ser silenciado.

Democracia exige coragem diária

Segundo a autora, a tecnologia não elimina a responsabilidade humana. Cada mensagem compartilhada ou cada silêncio diante de uma mentira é uma escolha. A democracia não sustenta-se só nas leis ou nas urnas, mas na disposição dos cidadãos de verificar informações, reconhecer erros e respeitar a divergência.

Regina alerta para a necessidade de combater o racismo, a violência contra a mulher, a discriminação LGBT e a desigualdade. A cidadania vai além do voto: exerce-se na fiscalização dos governantes e no respeito à dignidade alheia.

A lição de Gullar

A poeta Ferreira Gullar ensinava que a vida concreta vale mais que abstrações. Para Regina, isso significa valorizar a criança que precisa de escola, o trabalhador com dignidade e o idoso com atendimento digno. Às vésperas da eleição, a pergunta central não é quem vencerá, mas que sociedade estamos dispostos a construir.